Finalmente o World Tour está de volta, com o habitual Tour Down Under a abrir as hostilidades mais a sério nesta temporada de 2026. Será que Jhonatan Narvaez consegue revalidar o título num traçado com algumas novidades?
Percurso
Prólogo
Um esforço curto e explosivo em Adelaide, com apenas 3600 metros, que certamente será do agrado de alguns sprinters. Cuidado com os corredores que se dão bem na pista. Desde 2023 que não havia um prólogo, mas na altura com quase 6 kms dava para fazer mais diferenças. Atenção que este traçado é muito técnico e estreito, os candidatos à geral não devem arriscar, quem ambicione um triunfo no WT tem de o fazer.
Etapa 1
Normalmente quando o Tour Down Under começa em Adelaide este é o desenho da 2ª etapa, com final em Tanunda que faz parte de um circuito que inclui o Mengler Hill, uma contagem de montanha de 3ª categoria que não apresenta uma dificuldade assim tão grande, só para se ter noção em 2023 a jornada tinha 5 passagens por esta ascensão em vez de 3 e nem assim se evitou o sprint final. Bauhaus ganhou em 2023, Welsford em 2024 e 2025.
Etapa 2
Aí está o famoso Corkscrew, num dia em que os primeiros 15 kms da etapa podem ser importantes para o desfecho da mesma visto que são sempre a subir, as equipas da geral têm de conseguir controlar as operações e estancar a hemorragia de uma possível fuga grande. A subida do Corkscrew em si tem 3,6 kms a 6,6%, com a particularidade da estrada continuar a subida por mais alguns quilómetros, mas sem a dureza do miolo, que tem 1000 metros a 11,7%. A 4 kms da meta ainda existe um pequeno topo de 400 metros a 7,6% que pode desorganizar ainda mais as coisas e o final é muito rápido e não é fácil fechar espaços nessas condições. Não é o mesmo percurso, mas é parecido à etapa do ano passado em que Javier Romo atacou, surpreendeu e ganhou isolado perante um grupo perseguidor que não se organizou mesmo tendo 20 unidades e 5 elementos da Lidl-Trek.
Etapa 3
Mais uma jornada curta, desta vez com final em Nairne e parece-me um bom dia para os sprinters caso consigam sobreviver às 3 complicadas subidas dos 30 kms iniciais, todas com mais de 2 kms e a mais de 6%. O final não apresenta dificuldades de maior.
Etapa 4
O final que todos aguardam, uma subida relativamente curta e explosiva, mas onde se rebenta com muita facilidade com um ambiente incrível, é o mais parecido que iremos ver ao Alto do Malhão, este ano a ser ultrapassada por 3 vezes. São uns longos 3200 metros a 7,5% em que o miolo é o mais difícil, com 1000 metros a 8,6%, já assistimos a grandes recuperações e grandes quebras. Em 2025 Jhonatan Narvaez selou aí a vitória na geral pois superou Javier Romo.
Etapa 5
Este final de competição em Stirling é inusitada e a organização espera que apimente um bocadinho a classificação geral até ao fim, com 8 passagens pelo circuito final que não é nada fácil. Ora bem, 1500 metros a 4,6%, pequeno descanso, 1500 metros a 3,9%, um intervalo um pouco maior e depois mais 2000 metros a 3,7%, a coincidir com a meta. Os últimos finais em Stirling foram ganhos por Caleb Ewan, em 2018 e 2020, com a particularidade de não terem tanta dureza e de terem tido um grupo reduzido de 40/50 ciclistas no final, pode ser um dia complicado de controlar.
Táticas
Como habitual o Tour Down Under pode ser uma corrida decidida por segundos caso haja um relativo equilíbrio de forças, muitas vezes até as bonificações são decisivas para o caso. A etapa do Corkscrew vai ser decisiva porque vai ditar o tom para as restantes tiradas, ou seja, quem sair prejudicado desse dia vai ter de arriscar em Willunga e isso pode ser ainda mais problemático. Compreendo a tentativa da organização com a jornada de Stirling, mas com alguns blocos fortes e poucos ciclistas a menos de 1 minuto da liderança (acredito entre 10 a 15 na altura) pode haver alguma hesitação em arriscar. Principalmente agora com a questão dos pontos UCI, arriscar perder um 8º lugar e possivelmente perder dezenas de pontos UCI pode sair caro no final da época. É importante jogar bem com a força dos números, veja-se a Lidl-Trek no ano passado, com 5 corredores no top 20 após a 1ª etapa de montanha e depois ninguém no top-5 final, é crucial que os principais blocos vão para a estrada com um plano bem delineado e uma hierarquia bem definida.
Favoritos
Jhonatan Narvaez – 2º em 2024, vencedor em 2025, o equatoriano tem o perfil quase perfeito para ganhar esta competição, um bom trepador em subidas com menos de 10 minutos, muito explosivo, capaz de amealhar bonificações no final e nos sprints intermédios e foi clara a sua melhoria na primeira temporada ao serviço da UAE. No entanto, devo confessar que tenho os meus receios relativamente ao bloco da UAE e à coordenação com Jay Vine, que também tem ambições legítimas nesta corrida, é que imaginando Narvaez na liderança, Vine na luta pelo pódio, Ivo Oliveira, Molano, Laengen e Bjerg não são trepadores, resta Adam Yates para neutralizar possíveis ataques.
Luke Plapp – Ao longo dos últimos anos nunca foi muito feliz no Tour Down Under, no entanto creio que tem condições para melhorar o resultado aqui. Esta é uma corrida muito importante para a Jayco, que tem de utilizar a força dos números (O’Connor, Schmid) da melhor forma, sabendo que Plapp tem de atacar de longe . Mostrou boa forma nos Nacionais, mas também não teve grande inteligência táctica e vamos ver se não perdeu algum apoio da equipa por causa disso, Plapp já foi 6º em 2025 e anda bem em Willunga, mas tem de fazer a diferença no Corkscrew.
Outsiders
Jay Vine – Foi o vencedor em 2023, quando o traçado também tinha esta dureza e acredito que veio novamente com essa ambição depois de se sagrar campeão nacional de contra-relógio. Haver mais 1 subida dura é ideal para ele e para a estratégia da equipa, pode atacar cedo no Corkscrew enquanto Narvaez e Yates seguem ataques e depois se escondem na perseguição, podendo o equatoriano roubar bonificações.
Finn Fisher-Black – Fez um excelente início de temporada em 2025, depois desapareceu e nunca mais foi visto ao mesmo nível, veremos se repetiu a preparação que lhe valeu o 3º lugar final, atenção que tem características semelhantes a Narvaez e como se viu no UAE Tour também se defende bem em subidas mais longas.
Santiago Buitrago – No papel este percurso assenta-lhe que nem uma luva, já vimos o colombiano brilhar em ascensões com esta duração, não se mostra incomodado com o calor e ainda tem possibilidade de amealhar algumas bonificações, precisa de recuperar as sensações de 2024 porque o final de época em 2025 foi relativamente fraco. O facto do bloco de apoio tem apenas Stannard e Zambanini pode mostrar-se muito curto.
Possíveis surpresas
Javier Romo – O espanhol vai tentar provar que o sucedido em 2025 não foi por acaso, o que é certo é que mais à frente fez uma boa Vuelta, onde deixou boas indicações. No entanto, não creio que com este bloco da Movistar em seu redor possa ganhar, caso vá na liderança para Willunga ou Sitrling será atacado por todos os lados.
Lennert van Eetvelt – Não tenho dúvidas que é … uma das grandes incógnitas desta corrida. Um jovem extremamente talentoso que andou nas horas em 2024, que iniciou bem 2025 e que depois teve muitos problemas físicos, não competindo desde Julho com problemas nas costas. Está numa estrutura com muitas coisas novas depois da fusão, tenho a sensação que ou faz top 5 ou nem o vamos ver.
Ben O’Connor – Vou dizer desde já que não tenho grandes esperanças no australiano, creio que tanto Schmid como Plapp têm mais perfil para uma corrida destas e principalmente para andar bem no início do ano, geralmente O’Connor precisa de uns dias de competição para carburar. Nos últimos 4 anos só participou em 2023, quando foi 6º numa edição bem dura.
Andrea Bagioli – Acredito no potencial do jovem italiano, no entanto não acredito que ele tenha capacidade para estar com os melhores na montanha, mas sim num grupo perseguidor, tentando aproveitar eventualmente a última jornada para ganhar tempo em cortes e bonificações, acho que pode fazer top 5.
Filippo Zana – Estreia do italiano na corrida australiana, veremos como se adapta a esta realidade e ao clima, para já terá outra liberdade e responsabilidade na Soudal-Quick Step, a expectativa está na sua evolução com a entrada noutra realidade, há corredores que dão o salto.
Samuel Watson – Sem um nome sonante, veremos o que consegue fazer o britânico que em 2025 obteve alguns resultados de destaque em corridas por etapas com algumas colinas, até na Figueira Champions Classic.
Patrick Konrad – Sólido candidato ao top 10.
Chris Harper – A correr pela selecção australiana, sem grande pressão, é um nome a considerar para lutar pelos 5 primeiros, não creio que seja dos corredores mais marcados.
Simone Velasco – Bom puncheur que nos seus dias sobe bastante bem, a Astana vem de um 2025 de grande sucesso e vai querer continuar a tendência.
Nicolas Prodhomme – Uma das sensações de 2025, principalmente do Giro para a frente, vai trepar com os melhores, mas vai faltar-lhe explosão nas alturas certas para seguir ataques e obter bonificações.
Corbin Strong – Na minha opinião o percurso é duro demais para ele tentar uma reencarnação de Daryl Impey, top 10 na melhor das hipóteses.
Super-jokers
Os nossos super-jokers são Adam Yates e Mauro Schmid.