Como a luta pelos pontos World Tour afetou o futuro de muitos ciclistas

Apesar de ser um ranking de triénio, a luta pela subida/manutenção no World Tour, teve o seu ponto alto na época de 2022. Muitas equipas aflitas, tentavam colocar o máximo de ciclistas entre os primeiros lugares, às vezes, abdicando de vencer, tentando aproveitar todos os pontos possíveis. A Arkea-Samsic foi uma das equipas que adoptou esta estratégia e aqui entra o testemunho em primeira pessoa de Benjamin Declercq, ciclista que sentiu na pele esta estratégia.



Quantas vezes vimos a formação francesa a sprintar com um ciclista de cada lado da estrada só para somar mais pontos numa determinada clássicas do que o vencedor da mesma? Inúmeras! Em entrevista ao Het Laatste Nieuws, o belga começa por criticar o sistema de pontuação afirmando que “destrói as corridas.” Declercq continua, referindo que “percebe que tenha que existir um sistema de pontuação que distinga as equipas World Tour das ProTeams, mas não é objetivo.” A crítica principal aparece quando “um 2º lugar numa etapa do Tour dá apenas 50 pontos, enquanto que o 3º lugar no GP d’Isbergues dá 70 pontos.”

Tudo isto afetou as dinâmicas de corridas da própria equipa, apenas os 10 ciclistas mais pontuados contavam para o ranking, e, por isso, era necessário fazer escolhas. “Este ano, as nossas táticas foram ajustadas ao sistema. Ainda antes da temporada começar já estavam decididos quais os 10 ciclistas que iriam dar os pontos.” Segundo Declercq, esta foi uma situação fora do normal, já que “em 2021, esperámos pelo final da primavera para definir quem conseguiria dar mais pontos à equipa. As equipas preferiram dar ver um dos seus 10 melhores ciclistas acabar em 3º no GP d’Isbergues, do que o 15º ciclista ganhar prova 1.1 ou terminar em 2º numa etapa do Tour.”



E Benjamin Declercq foi vítima da situação que mencionamos anteriormente. Numa clássica da primeira fase da temporada, o belga de 28 anos fazia parte do grupo da frente mas não foi autorizado a defender as suas possibilidades de vitória. O irmão mais novo de Tim Declercq afirma que “o facto de eu ter que poupar energias numa situação promissora foi muito desmotivador. Como é que tu, enquanto ciclista, podes tornar-te valioso para outras equipas quando o teu contrato está a terminar? Então continues a desempenhar o teu papel de maneira exemplar, na esperança de que a tua atual equipa valorize isso.”

No entanto não foi isso que se sucedeu … A Arkea-Samsic subiu ao World Tour e não renovou o contrato de Benjamin Declercq que, este ano, apenas se destacou no Saudi Tour, onde foi 9º. Estamos a 26 de Outubro e o belga ainda se encontra sem equipa para 2023 e com a carreira em suspenso. Em forma de desabafo, disse que “só posso falar por mim, mas há ciclistas que vão reconhecer a minha situação. Percebo as escolhas da equipa, mas devido ao sistema de subida/manutenção, alguns ciclistas são agora vítimas e isso é uma pena.”



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