Depois do primeiro Monumento do ano começa já amanhã a Volta a Catalunha, uma prova bem dura, com 3 chegadas em alto, e com o atractivo de termos o duelo entre Jonas Vingegaard e João Almeida na antecâmara do Giro.

 

Percurso

Etapa 1

A Volta a Catalunha arranca em Sant Feliu de Guíxols com uma etapa que, apesar de classificada como acessível, está longe de ser completamente plana. O percurso costeiro é típico desta zona da Catalunha: estradas onduladas, com pequenas subidas curtas mas repetidas, que vão desgastando as pernas logo no primeiro dia. Os quilómetros finais vão parecer as clássicas das Ardenas do que o Norte de Espanha, com 7 pequenos topos antes da rápida aproximação à meta, os 500 metros finais empinam a 5%, veremos que tipo de corredor sai vitorioso.



Etapa 2

Sem grandes dificuldades, mas ainda com alguma ondulação, esta segunda tirada tem quase 2000 metros de desnível e volta a ter um final em ligeira subida, vai ser preciso muita potência. Atenção aqui às zonas expostas, ainda que a previsão de vento não seja para já muito significativa.

 

Etapa 3

A terceira jornada, entre Mont-roig del Camp e Vila-seca, é a mais tranquila da semana. Com um perfil praticamente plano e sem dificuldades montanhosas relevantes na segunda metade da etapa funciona como a última grande oportunidade para os sprinters antes da corrida entrar na fase decisiva. Aqui, o pelotão deverá controlar completamente a corrida e preparar um sprint mais clássico.

 

Etapa 4

É na quarta etapa que a Volta a Catalunha muda completamente de figura. A ligação entre Mataró e Vallter 2000 introduz a primeira grande chegada em alto e marca o verdadeiro início da luta pela geral. A subida final até Vallter é longa e exigente, com cerca de 11 quilómetros a rondar os 7-8% de inclinação média. O mais duro desta ascensão não é apenas a pendente constante, mas também o facto de terminar a mais de 2.000 metros de altitude. Atenção a uma fase intermédia da subida em que as % não baixam dos 8%, tornando esta etapa uma primeira grande triagem entre favoritos.

 

Etapa 5

A quinta etapa, entre La Seu d’Urgell e Coll de Pal, é a etapa rainha e provavelmente o dia mais decisivo da corrida. O percurso inclui várias subidas longas e acumulados de desnível muito elevados, aproximando-se dos 4.500 metros. O destaque vai para a subida final, que é uma das mais duras da região. Trata-se de uma ascensão com cerca de 19 quilómetros, com inclinação média perto dos 6-7%, mas com várias zonas bem mais inclinadas, sobretudo na parte final. É uma subida bem irregular, há troços mais suaves que permitem recuperar, mas também rampas duras acima dos 10% que podem partir completamente o grupo dos favoritos. Está longe de ser uma chegada Unipuerto, uma chegada em altitude com um desnível acumulado de 4500 metros, podem fazer-se grandes diferenças na geral.

 

Etapa 6

A sexta etapa, entre Berga e Santuari de Queralt, apresenta um perfil diferente, mais curto mas extremamente explosivo. A subida final para o Santuari de Queralt é bastante mais curta do que as anteriores, com cerca de 6 quilómetros, mas muito mais irregular e inclinada. A média ronda os 7-8%, mas com vários troços acima dos 10%, especialmente nos quilómetros finais. Este tipo de subida favorece corredores explosivos, capazes de mudanças de ritmo violentas. Ao contrário da etapa rainha, aqui é menos provável vermos ataques de muito longe, a ação tende a concentrar-se na subida final, onde pequenas diferenças podem ainda assim ser decisivas numa classificação geral apertada. Veremos se alguém quer lançar a corrida de longe, visto que o Coll de Pradell tem os últimos 5,5 kms a 11%, como esta é uma corrida onde ciclistas não têm muito a perder podemos ver espectáculo.



Etapa 7

A última etapa decorre em circuito em Barcelona, com várias passagens pela subida de Montjuïc. Apesar de ser curta, com cerca de 95 quilómetros, é tudo menos fácil. A subida de Montjuïc não é longa, mas é suficientemente inclinada para provocar desgaste acumulado ao longo das várias voltas. Cada passagem aumenta a dificuldade e pode abrir espaço para ataques. Esta etapa funciona muitas vezes como uma clássica, com ritmo elevado, ataques constantes e pouca organização no pelotão. Se a classificação geral estiver apertada, este é o cenário perfeito para uma reviravolta final. O posicionamento será fundamental e veremos muitos corredores a aquecer nos rolos antes da partida para entrarem já bem activos.

 

Tácticas

Com 3 chegadas em alto creio que não haverá muita táctica envolvida nesta corrida, deverá imperar a lei do mais forte e não contará muito ter superioridade numérica. As etapas 6 e 7 são mais difíceis de controlar caso haja ataques de longe, mas julgo que com uma boa organização e gestão os principais blocos estão suficientemente apetrechados para gerir a situação.

 

Favoritos

Jonas Vingegaard – Uma queda atrasou ligeiramente a sua preparação, no entanto apresentou-se a um excelente nível no Paris-Nice, foi pena não termos conseguido ver a real condição física num duelo com Juan Ayuso, mas a sua margem de vitória não deixa qualquer dúvida do seu domínio. Vai querer deixar uma boa imagem neste embate antes do Giro.

João Almeida – É uma pequena incógnita saber o nível de João Almeida, que falhou o Paris-Nice devido a problemas de saúde. Apresenta-se aqui com um bom bloco de montanha (Soler, McNulty, o regressado Vine) e com uma série de 3 etapas que são muito o seu estilo, subidas longas e duras onde não se pode entrar no vermelho. Acredito que vai estar bem, mas ainda uns passos atrás de Vingegaard e temo pela última etapa devido à colocação.

 

Outsiders

Felix Gall – Se o austríaco pudesse desenhar um percurso seria certamente algo parecido com isto, longas montanhas com uma altitude elevada, longe dos esforços explosivas que constantemente o fazem perder tempo para os rivais. No UAE Tour apresentou-se ambicioso e deve acreditar num pódio aqui, ainda para mais numa Decathlon que está a andar bem e que também tem Riccitello.




Oscar Onley – É uma Ineos a tentar recuperar todo o fulgor de há 10 anos e que lentamente tem estado mais próximo do nível a que nos habituou. Onley é uma grande aposta, não só pelo dinheiro que a equipa britânica pagou à DSM, mas também pelo facto de ser jovem e britânico. Começou muito bem na Volta ao Algarve com uma bela exibição no Malhão e no Tour 2025 provou que consegue lidar com a alta montanha.

Thomas Pidcock – É alguém que sabemos que está num grande momento de forma, só desta maneira se consegue acompanhar o ritmo de Pogacar na Cipressa e no Poggio, a minha questão é se não fez trabalho específico para tal, descurando um pouco a alta montanha visto que ainda estamos longe das Grandes Voltas. É alguém capaz de ganhar alguns segundos nas 2 primeiras etapas e perigoso em Barcelona, tanto nas colinas como a descer, a estratégia pode passar por minimizar perdas nas chegadas em alto.

 

Possíveis surpresas

Remco Evenepoel – Para mim não será um favorito para esta corrida, é mais um teste à sua condição física e todos sabemos que os últimos dias não foram fáceis na preparação, o belga chegou a estar preso em Teide. Vem agora da altitude, não se sabe bem como o corpo reage, pode acusar o desgaste ou estar a voar, por um lado ainda bem que os 3 primeiros dias são acessíveis para dar alguma rodagem às pernas. Continuo a achar que Evenepoel tem dificuldades nas subidas longas e em altitude e isso vai ficar visível aqui. Se ganhar para mim é uma enorme surpresa.

Florian Lipowitz – Acredito que seja mais a aposta da equipa do que propriamente Evenepoel, que está aqui a procurar sensações e referências. Apesar de um início de época discreta é preciso recordar o enorme Tour que fez no ano passado, talvez a Volta ao Algarve tenha sido precedida por altitude e o corpo não tenha reagido da melhor forma.

Ciccone/Gee/Skjelmose – A Lidl-Trek tem um trio de peso no ataque à Volta a Catalunha, no entanto não estou confiante nas chances de nenhum ciclista. Ciccone ainda pareceu um pouco longe da melhor forma no Tirreno-Adriatico, acho que as subidas são longas e duras demais para Skjelmose e Derek Gee é um ciclista mais de contenção e regularidade do que outra coisa, acho que no melhor dos cenários metem alguém no top 5.

Lenny Martinez – Impressionou bastante na etapa final do Paris-Nice ao ser o único a seguir um forte ataque de Jonas Vingegaard, ainda que tenha sido numa subida mais curta do que as que os ciclistas vão encontrar aqui. Ainda estamos à espera do momento de afirmação ao mais alto nível do jovem francês, veremos se será aqui.



Ben O’Connor – Corredor bastante irregular, mas que nos seus dias consegue vitórias extraordinárias, resta saber que versão teremos nas estradas espanholas. Acredito mais numa vitória em etapa já com algum atraso na geral do que num pódio final.

Mikel Landa – 36 anos de idade, primeira corrida da época, um top 10 já seria bom em casa.

Enric Mas – Não espero muito dele, aliás, acredito que Einer Rubio faça melhor na geral.

Richard Carapaz – A minha expectativa é que já esteja melhor do que no Tirreno-Adriatico, é um motor a diesel que demora a arrancar nas épocas, se sentir uma aberta vai certamente arriscar de longe.

Matthew Riccitello – Se nada de anormal acontecer, mesmo trabalhando para Gall, vai fechar no top 10.

Carlos Rodriguez – Deu algumas boas indicações no início da temporada depois de um 2025 para esquecer, o talento e o potencial estão lá, será que o espanhol ainda vai a tempo se afirmar ao mais alto nível na Ineos?

 

Super-Jokers

Os nossos super-jokers são Santiago Buitrago e Jai Hindley.

By admin