Está aí o primeiro Monumento da temporada! “La Primavera” marca o início de uma das fases mais preenchidas da temporada, onde se espera muita emoção e espetáculo. Conseguirá Tadej Pogacar finalmente vencer a competição?
Percurso
Com praticamente 300 quilómetros, a Milano-Sanremo é a prova mais longa da temporada velocipédica. O percurso é praticamente o mesmo de sempre, e como é habitual, a primeira dificuldade é o Passo del Turchino (2,4 kms a 5,8%). É a partir dos 235 kms que as coisas complicam, com a entrada nos Capos. Ao quilómetro 235 o Capo Mele (2 kms a 3,7%), ao quilómetro 251 o Capo Cervo (1,5 kms a 2,4%) e o mais complicado surge ao km 259, o Capo Berta tem 1500 metros a 6,7% de inclinação média.
Depois vem outra fase da corrida. A entrada na Cipressa, que é praticamente a derradeira oportunidade de deixar sprinters para trás, principalmente devido ao comprimento da subida, com 5700 metros, já que a inclinação média é somente de 4,1%. Por fim, temos o Poggio, 3700 metros a 3,7% a apenas a 5,5 quilómetro da meta. parece fácil mas depois de 280 kms qualquer inclinação na estrada custa. Segue-se uma descida rápida e técnica, onde também se podem fazer diferença, antes da sempre dramática reta final na Via Roma.

Táticas
É incrível como há 5 anos estava a escrever a antevisão para esta mesma prova e não se conjecturava sequer ataques na Cipressa, a questão era quem ia mexer na corrida e o sprint seria com quantos ciclistas. O paradigma mudou graças a Tadej Pogacar, o esloveno já ganhou quase tudo o que há para ganhar, falta-lhe a Milano-SanRemo e o Paris-Roubaix e náo fosse outro “alien” chamado Mathieu van der Poel até podia já ter feito o pleno de carreira, só que o holandês teima em dar-lhe dissabores. O plano do ano passado de atacar a Cipressa a top até que resultou, só mesmo Van der Poel numa primeira fase e Ganna numa segunda fase conseguiram acompanhar o esloveno, surge a dúvida se este ano irá acontecer a mesma coisa.
Creio que na cabeça de Pogacar está o facto de ter 27 anos, está teoricamente no auge da carreira, o problema é que Van der Poel também e apesar do holandês ter 31 anos a tendência será para Pogacar começar a perder alguma explosão e para a nova geração começar a aproximar-se do astro esloveno. No ano passado Romain Gregoire tentou, chegou demasiado perto do sol e quebrou, mas basta ver 2 aspectos, primeiro o facto de que no grupo perseguidor que terminou a 43 segundos da frente chegaram 8 corredores com 23 anos ou menos, segundo a luta que Paul Seixas deu na Strade Bianche, o jovem francês não esteve assim tão longe de conseguir juntar-se a Pogacar.
Um aspecto determinante poderá ser o vento, as previsões apontam para vento frontal/lateral na Cipressa e no vale entre a Cipressa e o Poggio. Isto faz com que seja mais difícil fazer diferenças e que um bloco forte e coeso, uma perseguição organizada, até pode conseguir minimizar perdas. Ainda assim, a única forma de Pogacar poder triunfar nesta corrida é fazer o mesmo do ano passado, fazer a Cipressa a full gas e diminuir a concorrência, só que a ideia este ano julgo que será outra, levar Isaac del Toro com ele para desta maneira ter alguma forma de superioridade numérica num grupo restrito e manter a energia para um ataque forte no Poggio.
Quanto maior um grupo maior a probabilidade de haver diferentes interesses e desorganização. Uma coisa é Pogacar ir embora com Ganna e Van der Poel, provavelmente vai haver colaboração, outra coisa é também estarem lá Pidcock, Jorgenson, Roglic, entre outros. Se Pogacar estiver isolado num grupo destes vai ser atacado por todos os lados e duvido que Van der Poel ajude, o holandês já tem esta corrida no currículo, quem ter de assumir é o esloveno. Por isso mesmo é fundamental para ele ter Del Toro com ele, para fechar espaços ou seguir ataques na roda.
Em relação à possibilidade dos sprinters, mesmo aqueles que melhor ultrapassam estas dificuldades e estão em melhor forma, estarão na melhor das hipóteses junto dos melhores na Cipressa e mesmo assim já é com muito optimismo meu, depois vão descolar no Poggio e a partir desse momento não haverá volta a dar. Atenção que a prova deste ano será mais aberta, é preciso recordar que Pidcock caiu no início da Cipressa no ano passado e que Van Aert estava completamente fora dela. Isto, a juntar ao vento de frente, dá mais azo a surpresas.
Favoritos
Mathieu van der Poel – Está numa fase da carreira onde apenas este tipo de provas importam e acredito que tenha trabalhado muito nas últimas semanas para este objectivo. Esteve muito forte na Omloop e no Tirreno claramente esteve a testar-se, o que fez na última etapa a puxar o pelotão sem grande razão aparente numa subida até parecida com a Cipressa foi mesmo a pensar na Milano-Sanremo. Com um sprint muito forte depois de uma corrida dura, muito bom no posicionamento e tecnicamente, nota-se que está muito confiante.
Thomas Pidcock – Vou surpreender nesta escolha ao deixar Pogacar fora dos favoritos porque até agora estou a gostar muito da temporada de Thomas Pidcock. Eficaz na última etapa da Vuelta a Andaluzia, muito forte na Strade Bianche onde problemas mecânicos o deixaram para trás quando seguia na roda de Pogacar, perfeito na Milano-Torino com uma vitória imponente. Pidcock tem 26 anos e parece melhorar a olhos vistos em vários aspectos, é alguém que pode ter alguma liberdade numa marcação directa entre os 2 favoritos e que desce como um demónio.
Outsiders
Tadej Pogacar – Não deixa de ser incrível um trepador, um voltista, fazer 5º em 2022, 4º em 2023, 3º em 2024 e 3º em 2025 numa clássica que anteriormente era talhada para sprinters. A progressão natural diz que vai fazer 1º amanhã, eu acho muito complicado isso acontecer devido ao contexto. Primeiro as condições de vento não são as melhores, segundo as ausência devido a quedas na equipa da UAE de Wellens e Narvaez vão-se fazer sentir no endurecimento da corrida e terceiro acho que todos já sabem o que ele vai fazer e onde vai atacar, todos se prepararam para isso.
Isaac del Toro – Vejo alguns cenários onde o talentoso mexicano pode levantar os braços. Não é assim tão improvável sair um grupo na Cipressa e onde a Visma e a UAE podem estar representadas com 2 elementos, caso a equipa não queira queimar Del Toro a trabalhar na frente pode atacar e caso se escape com Jorgenson, por exemplo, é um claro favorito pela sua explosão. Pogacar ficaria muito mais descansado atrás e poderia simplesmente marcar Mathieu van der Poel.
Filippo Ganna – Foi pena que no ano passado o italiano tenha perdido muito tempo a perseguir o duo da frente, isso claramente desgastou-o para a parte final e ele não quer cometer o mesmo erro. Aparece aqui em grande forma e é aquele ciclista que num grupo de 3/4 pode aproveitar a marcação directa e tem um perfil que não se lhe pode dar 2 metros de vantagem.
Possíveis surpresas
Wout van Aert – Não se fala muito nele, mas num grupo de 10 a sobreviver à Cipressa ele será na teoria o melhor sprinter. Nos últimos tempos temos visto um Wout van Aert mais pragmático, mais conservador, mas também mais eficaz no que toca a aproveitar para fazer bons resultados. Falamos de alguém que venceu em 2020 e foi 3º em 2021, 8º em 2022 e 3º em 2023.
Matteo Jorgenson – Até agora tem estado irrepreensível em 2026, 8º na Strade Bianche, 2º no Tirreno-Adriatico, tem estado perfeito nos momentos chave da corrida e a Visma acredita que com a ajuda de Wout van Aert, podem fazer um duo bem perigoso.
Romain Gregoire – Ainda muito inexperiente, acredito que tenha aprendido com o que aconteceu em 2025, quando rebentou o motor a tentar seguir o ritmo de Pogacar. Obviamente que numa corrida destas ele fez o que tinha de ser feito, tem de se arriscar nestes momentos, ao passar por isso sabe o que lhe faltou e deu boas indicações na Strade Bianche.
Tobias Lund Andersen – Dos poucos sprinter que têm possibilidade de sobreviver relativamente perto do grupo de Pogacar na Cipressa, o dinamarquês está em grande forma, a viver a sua melhor temporada de sempre nesta mudança para a Decathlon e pode surpreender. A vitória estará fora do alcance, mas o top 5 é possível.
Mathias Vacek – Acho que ainda pode ser cedo demais para Mads Pedersen após a sua longa paragem e neste caso e aposta da equipa deverá recair no checo visto que Ciccone tem uma fraca ponta final, Bagioli é muito inconsistente e Kragh Andersen está num papel mais de gregário. Atenção que pode sobreviver num grupo de 10 na Cipressa e a partir daí tudo é possível.
Jasper Philipsen – Foi uma das grandes surpresas de 2024, quando o belga conseguiu sobreviver num grupo de 12 elementos e depois foi lançado pelo seu colega Mathieu van der Poel para a vitória. Não acho que esteja na mesma forma, no entanto acho que o pico de forma programado será para daqui a 3 semanas e na Nokere Koerse já deu bons sinais. Pode estar no mesmo grupo de Lund Andersen.
Paul Magnier – No futuro talvez, amanhã ainda não acho que seja o dia do talentoso francês, pode ser que me surpreenda já.
Alex Aranburu – Alguém que de vez em quando saca um grande coelho da cartola quando menos se espera, veja-se como se apresentou na Volta ao País Basco no ano passado.
Biniam Girmay – Enquanto houver Pogacar e a UAE a destruir a Cipressa, o eritreu não tem hipóteses de ganhar esta corrida.
Matteo Trentin – Um corredor normalmente muito consistente em grandes momentos, mas que nos últimos 5 anos apenas foi 12º em 2021 e 9º no ano passado.
Jasper Stuyven – Vencedor em 2021, quando ainda não havia um Cipressa supersónica, em teoria será o ciclista mais protegido dentro da Soudal-Quick Step, é alguém que merece esse estatuto e que vem de um bom Paris-Nice.
Laurence Pithie – Para mim a melhor carta a ser jogada pela Red Bull-Bora e mais do que tentar com que Roglic e Pellizzari tentem seguir Pogacar num terreno que não é o dele, poderiam reunir as tropas em redor do australiano, estamos a falar de alguém que vem de um excelente Paris-Nice e que foi 11º no Tour des Flandres do ano passado.
Mauro Schmid/Mattia Cattaneo – Ambos em excelente forma e que considero sólidos candidatos a um top 10, será este ano a afirmação derradeira do suíço em provas de 1 dia?
Super-jokers
Os nossos super-jokers são Paul Lapeira e Matej Mohoric.