Está na hora de mais um Monumento, desta vez no empedrado da Flandres! Numa temporada de clássicas recheada de muito espetáculo e drama, será alguém capaz de impedir nova vitória de Tadej Pogacar?
Percurso
Bem cedo, a partida é dada na cidade de Antuérpia. Digno de um Monumento são os 269 quilómetros de extensão, os 15 setores de empedrado e as 16 subidas. Os primeiros 127 quilómetros são planos, sem qualquer dificuldade e, a começar, surge o mítico Oude Kwaremont (2,2 kms a 4%, 1500 metros em empedrado com rampas máximas de 11,6%). Surge pela primeira vez ao km 126,8 sendo que a partir daqui inicia-se uma nova prova, que se caracteriza por muitas ascensões, numa rápida sucessão.
Começa pelo Eikenberg (1200 metros a 5,2%), seguindo-se mais 4 subidas e 5 setores de empedrado em apenas 38 quilómetros: Wolvenberg (645 metros a 7,9%), os setores de empedrado de Holleweg+Karel Martelstraat (2400 metros) e Jagerij (900 metros), Molenberg (400 metros a 6,4%), Paddestraat (2300 metros), Berendries (900 metros a 6,3%) e Valkenberg (600 metros a 7,3%).
Antes da entrada no circuito final surgem o Berg Ten Houte (1100 metros a 5,5%) e o Nieuwe Kruisberg (2600 metros a 4,1%), que culmina a 64 kms da meta. A corrida entra num período de acalmia até aos derradeiros 55 quilómetros, quando os ciclistas fazem o seu regresso a Oudenaarde, que começa com mais uma passagem do Oude Kwaremont, à qual se segue o famoso Paterberg (360 metros a 12,9% com rampas a 20%). A 45 quilómetros da meta aparece o Koppenberg (600 metros a 8,1%), logo seguido do Mariaborrestraat (1000 metros em empedrado) e do Taaienberg (600 metros a 6,3%), que está a 36,5 quilómetros do final.
Se ainda nada estiver decidido, restam 3 subidas. O Oude Kruisberg (2,5 kms a 4,2%, com 500 metros em empedrado) antecede a terrível dupla do Oude Kwaremont e do Paterberg, sendo que esta ascensão termina a apenas 16 quilómetros da linha de meta. Da última dificuldade até à linha de meta as estradas são planas e bastante largas, perfeitas para uma perseguição a um ciclista que esteja isolado.

Táticas
O Tour de Flandres tem sido dominado por Mathieu van der Poel e Tadej Pogacar desde 2022, ora vejamos. Em 2022 chegaram os 2 a sós à reta da meta, só aí foram apanhados pelos perseguidores após muita hesitação, o esloveno bateu o neerlandês em 2023, em 2024 Mathieu van der Poel venceu com mais de 1 minuto de vantagem e, no ano passado, foi a vez de Pogacar vencer isolado. Aliás, o corredor da Alpecin já tinha ganho em 2020 batendo Wout van Aert num sprint e perdeu para Kasper Asgreen em 2021, também ao sprint. Aqui estão os 2 grandes candidatos ao triunfo, 2 monstros autênticos que se transformam ainda mais nos Monumentos. Mas se nas outras temporadas ainda podia haver alguma divisão de favoritismo, este ano tem de ir mais para Pogacar.
A estratégia da UAE Team Emirates será a mesma de sempre, endurecer a corrida ao máximo, fazer uma corrida seletiva e preparar o ataque de Pogacar que acredito possa acontecer no Kwaremont e, posteriormente, no Koppenberg que, apesar de não ser a subida/setor mais longo é um dos mais duros. A partir daqui, é vermos que consegue seguir o esloveno e, se alguém seguir com ele, se existirá colaboração e, talvez, possa existir a reentrada de outros nomes que não tenham cedido muito. Com isto, a única estratégia para derrotar Pogacar é surpreender e antecipar os ataques, tentando desmantelar o bloco da equipa.
A melhor fase para o fazer é entre o Berg Ten Houte e o início do Oude Kwaremont, uma zona mais asfaltada e onde nomes como Remco Evenepoel e Wout van Aert podem usar a sua potência e capacidade de contra-relógio para se distanciar. É uma hipótese mas também não é algo que seja seguro pois Pogacar e Van der Poel vão estar atentos a estes nomes, são os principais rivais. A chave da corrida estará na sequência Oude Kwaremont-Paterberg-Koppenberg.
Favoritos
Tadej Pogacar – 2 dias de competição em 2026 e … 2 vitórias! O esloveno está a fazer um calendário cirúrgico mas também está 100% eficaz, mostrando que é, de longe, o melhor ciclista da atualidade e um dos melhores, senão o melhor, de sempre. Este é o seu terreno, as subidas da Flandres são perfeitas para si e, como já referimos, deverá atacar no Kwaremont e no Koppenberg, tem sido a estratégia e se resulta não há como mudar. Veremos se alguém o consegue seguir, será muito difícil.
Mathieu van der Poel – se há ciclista que pode estar confiante de bater Pogacar porque já o fez é o neerlandês. Apesar de ter ganho a E3 não pareceu tão forte como noutros anos, veremos se esta semana afinou os últimos detalhes para melhorar e estar ao nível do esloveno ou até melhor. A Alpecin não é a melhor das equipas, Van der Poel ficará cedo isolado, tem de estar num dia perfeito.
Outsiders
Wout van Aert – parece que estamos a recuar alguns anos, o belga está de volta a um excelente nível e, apesar de ainda não ter vitórias, é alguém que já as merecia. Van Aert é alguém que não tem medo de atacar e colaborar nos grupos onde está, o que até o pode prejudicar. Numa Visma muito forte, terão de fazer uma corrida de grande nível. 4º nas últimas duas temporadas, pelo menos quererá chegar ao pódio, mas vencer a Flandres é num objetivo de carreira.
Remco Evenepoel – que bela surpresa esta adição! Um dos melhores corredores de ciclistas do Mundo, veremos como se adapta ao empedrado da Flandres, algo onde ainda não foi testado e pode sentir dificuldades ainda para mais e o piso estiver escorregadio. O melhor para si seria atacar numa fase mais asfaltada e, numa Red Bull-BORA recheada de opções, isso pode vir a acontecer. Tanto pode estar na luta pelos primeiros lugares como … abandonar.
Florian Vermeersch – o objetivo é trabalhar para Pogacar mas se o esloveno se isolar cedo como começar a pensar noutros objetivos. Nunca foi muito bom neste tipo de subidas mas este ano está fabuloso, 3º na Omloop e na E3 e um dos melhores na Gent-Wevelgem e na Dwars door Vlaanderen. Sem acabar por poupar energias pode sonhar com o pódio.
Possíveis surpresas
Mads Pedersen – o que o dinamarquês está a fazer depois da lesão de início de época é notável no entanto a distância de Monumento pode levantar algumas questões. Já com dois 2º lugares e um 3º, só falta o lugar mais alto do pódio ao antigo campeão do Mundo. Prefere atacar do que esperar.
Jasper Stuyven – 5º no ano passado, o belga está a fazer uma temporada de clássicas excelente. A veterania é só um posto, o ciclista da Soudal Quick-Step sabe ler a corrida muito bem e repetir este tipo de resultado não será nada descabido.
Jonas Abrahamsen – o gigante norueguês nem tem o perfil ideal para as subidas da Flandres mas quem foi 5º na E3 e 9º na Gent-Wevelgem tem de ser destacado. Muito forte e com enorme potência neste tipo de subidas, Abrahamsen é aquele tipo de ciclista que pode surpreender.
Tim van Dijke – uma das surpresas da temporada de clássicas. Muitas vezes nos momentos decisivos mas depois falta a ponta final para estar na luta, tirando na Omloop quando foi 2º. Numa Red Bull-BORA com tantas opções, isso até pode jogar a seu favor.
Gianni Vermeersch – outra das opções da equipa alemã. Está a adorar a liberdade sem Van der Poel e a mostrar o porquê de ser o seu braço direito. 8º na E3 é um excelente cartão de visita.
Christophe Laporte – mais discreto que noutras épocas mas, sem atacar muito, foi 7º na E3 e na Dwars door Vlanderen e 3º na Gent-Wevelgem. Em 7 participações aqui, apenas uma vez fez top-10, esse fator mental pode jogar contra si, mas está numa Visma a passar um bom momento.
Per Strand Hagenes – 2º na E3, um excelente cartão de visita. Na Dwars door Vlanderen esteve excelente na marcação aos ataques dos rivais, amanhã o cenário pode ser idêntico e, quem sabe, se uma dessas movimentações não acaba por pegar.
Matteo Trentin – como o vinho do Porto, cada vez melhor. O antigo campeão da Europa foi 3º na Kuurne, 6º na Gent-Wevelgem e 10º na E3, quem dera a muitos estes resultados ao longo da carreira. Sabe muito bem o que tem de fazer e ainda continua a ter uma boa ponta final. Por incrível que pareça, nunca fez top-1o aqui.
Magnus Sheffield – um nome mais alternativo, que já foi 6º em 2024. Numa INEOS a passar uma boa fase e motivada da vitória de Ganna na quarta-feira, o norte-americano terá carta branca. Nem sempre a sorte está do seu lado, muitas vezes tem quedas em momentos importantes.
Michael Valgren – seria um belo prémio para o experiente dinamarquês terminar entre os melhores. Longe dos tempos áureos mas a passar a melhor fase em muito tempo. A motivação está em alta e, numa equipa sem um grande líder, terá liberdade.
Super-jokers
Os nossos super-jokers são Mike Teunissen e Oliver Naesen.
