A crescente tendência da “futebolização” do mercado no ciclismo

Nas últimas semanas assistimos a 3 transferências que são cada vez mais recorrentes no ciclismo, mas que há 5 ou 10 anos eram quase impensáveis. Rescisões de contrato praticamente unilaterais, de ciclistas que procuram melhores e mais oportunidades de liderança ou simplesmente melhores condições financeiras. Um determinado corredor ter contrato até determinada data está a tornar-se cada vez mais relativo, é garantia de permanência na estrutura caso o mesmo queira, apenas isso.



O grande “caso” dos últimos anos foi o de Richard Carapaz, quando o equatoriano deixou a Movistar de uma forma completamente inesperada. O agente Giuseppe Acquadro, um verdadeiro especialista nestes casos, conseguiu colocar o vencedor do Giro 2019 e campeão olímpico em Tóquio com um contrato milionário na super estrutura da Ineos-Grenadiers, sucedendo o mesmo com o seu fiel escudeiro Andrey Amador. Já tínhamos abordado este tema ao de leve quando falámos da transferência de Ruben Guerreiro da EF Education-EasyPost para a Movistar. O “Cowboy de Pegões” ainda tinha contrato com a formação norte-americano e um factor decisivo que precipitou a sua saída foi a sua mudança de agente precisamente de João Correia para Giuseppe Acquadro.

Mikkel Honoré optou por sair da Quick-Step para a EF Education-EasyPost quando ainda tinha contrato com a equipa belga, algo que raramente aconteceu porque mesmo com poucas oportunidades geralmente os ciclistas preferem ficar numa estrutura mega vencedora como é a de Patrick Lefevere. Pressentindo que a aposta da Quick-Step em Evenepoel e Alaphilippe estava para durar, o dinamarquês que tem dado nas vistas nas últimas épocas preferiu ter a liderança em certas corridas do World Tour, tentando também ocupar o lugar vago deixado por Ruben Guerreiro, sendo um corredor também explosivo, só que não tão bom na alta montanha como o português.



O mais recente caso foi de Luis Leon Sanchez, também quando nada o fazia prever. Não foi de forma tão abrupta nem foi tão badalado, o que é certo é que na altura quando o ciclista espanhol assinou pela Bahrain-Victorious, a equipa comunicou que era um contrato por alguns anos. Contas feitas, o veterano de 38 anos está de volta, 12 meses depois, à estrutura que representou entre 2014 e 2021, a Astana. E não nos admirava que fosse para terminar a carreira no final de 2023, apesar de ainda ser corredor para terminar em 13º no Tour e 16º na Vuelta, sendo um constante perigo em fugas. Neste caso não há grandes motivos desportivos para esta mudança, há sim um regresso a uma estrutura onde esteve muito tempo e onde estava claramente confortável, podendo ter havido algum incidente interno na Bahrain-Victorious que não seja do conhecimento público.

Para além destas movimentações também são relevantes alguns rumores que correram pelos meios de comunicação neste mercado, a Ineos-Grenadiers querer “comprar” Remco Evenepoel à Quick-Step, o facto de Roglic poder sair da Jumbo-Visma mesmo tendo contrato. Por um lado assinam-se alguns dos maiores e mais longos contratos da história para tentar segurar os ciclistas mais valiosos, por outro nota-se que um contrato cada vez tem menos importância se um ciclista realmente quiser sair. Não nos admirava que no futuro começassem a surgir, tal como no futebol, algumas cláusulas de rescisão, como acautelamento para evitar a perda dos maiores activos por parte das equipas.



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