Análise às equipas presentes na Vuelta a Espanha 2022

AG2R Citroen Team

Ben O’Connor vem na ressaca de um Tour para esquecer, marcado por quedas e que acabou forçosamente mais cedo. O australiano chegava em grande forma e é um grande outsider para a geral, é preciso recordar que no Dauphine foi o que mais se aproximou do nível estratosférico da Jumbo-Visma, pena que será muito prejudicado pelos contra-relógios. O apoio na montanha é bom tendo em conta o contexto da formação gaulesa, principalmente pela presença de Bob Jungels, 12º no Tour, está de saída da equipa e já desempenhou o papel de gregário de luxo noutras ocasiões na carreira. Clement Champoussin foi 16º na Vuelta em 2021 e ganhou 1 etapa, parecendo estar a um nível semelhante em 2022 e Jaakko Hanninen vem de um bom resultado no Tour de l’Ain.

Na outra vertente o chefe-de-fila é Andrea Vendrame, o completo italiano faz a sua estreia na Vuelta e chega sem qualquer pódio, tendo feito um Giro repleto de top-10, 5 ao todo. É alguém que vai gostar da média montanha de algumas etapas e dos sprints em grupo reduzido, o problema é que quase sempre há alguém mais rápido que ele nesse grupo. Nans Peters deve entrar em algumas fugas, Antoine Raugel e Nicolas Pruhdomme vão ganhar experiência nesta Vuelta.

 

Previsão: Ben O’Connor irá salvar a sua temporada no que diz respeito a Grandes Voltas, vencendo uma chegada em alto através de uma fuga.




Alpecin – Deceuninck

Mais um elenco de caça etapas, muito à moda das outras Grandes Voltas para a melhor ProTeam do ano. O nome mais sonante é Tim Merlier, recentemente medalhado nos Europeus de estrada e campeão nacional belga. O ciclista de 29 anos é dos melhores puros sprinters aqui presentes, o problema é que não há assim tantas chances quanto isso para os puros sprinters e as outras equipas sabem que Merlier não passa muito bem a montanha, sendo muito improvável que termine a Vuelta. O comboio com Jimmy Janssens, Gianni Vermeesch e Lionel Taminiaux é interessante apesar de não ter grandes figuras.

Depois de uma primeira metade de temporada muito apagada, finalmente Robert Stannard está a render como se esperava depois de sair da BikeExchange. O australiano é um tremendo talento, muito polivalente e vai ser um nome a ter muito em conta nas etapas de média montanha. Jay Vine vai procurar nas fugas o triunfo que esteve perto de acontecer em 2021, sendo alguém que vai poupar energia nos primeiros dias e que nessas escapadas é importante contar com a ajuda de um corredor experiente como Xandro Meurisse, ele que este ano até foi 2º numa etapa do Tirreno-Adriático.

 

Previsão: Tim Merlier vai concluir o “tríptico” Grandes Voltas e irá estrear-se a ganhar na Vuelta, levantando os braços por duas vezes. Robert Stannard vai confirmar o bom momento de forma com um triunfo através de uma fuga.

 

Astana Qazaqstan Team

Última grande oportunidade da formação cazaque limpar a imagem de uma temporada bem abaixo das expectativas. Miguel Angel Lopez teve uma primeira metade de ano para esquecer, recentemente foi reintegrado pela equipa e deixou boas indicações na Vuelta a Burgos, sempre ofensivo e sempre na frente. Vincenzo Nibali fez um excelente Giro quando poucos estavam à espera, no entanto este traçado relativamente explosivo não o beneficia em nada, será daqueles corredores super ofensivos assim que tiver a oportunidade, vai querer deixar essa imagem.

Alexey Lutsenko é um nome que faz sentido para o top 10 tendo em conta a Vuelta que temos em mãos, o cazaque não é propriamente fã de jornadas com muito desnível e vem de um bom 9º posto no Tour, onde foi muito discreto. David de la Cruz costuma andar bem na Volta a Espanha mesmo quando as épocas não lhe estão a correr bem e Samuele Battistella tem tudo para ser um ciclista muito perigoso em fugas. Harold Tejada, Vadim Pronskiy e Yevgeniy Fedorov não são super gregários, mas podem ajudar numa ou outra etapa em fases decisivas.

 

Previsão: Miguel Angel Lopez vai terminar no top-10 e, na terceira semana, triunfará numa etapa de alta montanha.

 

Bahrain-Victorious

Uma equipa que quer voltar à ribalta após um Tour para esquecer. Mikel Landa teve uma grande oportunidade para finalmente ganhar uma prova de 3 semanas no Giro e foi somente 3º, dificilmente terá outra chance tão boa e não nos parece que venha fazer um grande resultado num traçado tão explosivo e onde vai perder muito tempo em contra-relógios. Vai ser muito interessante de acompanhar Gino Mader, que ainda não confirmou em 2022 o fenomenal 5º lugar conquistado na Vuelta do ano passado, o suíço tem potencial para liderar esta equipa. Wout Poels vem com hipóteses de ganhar 1 etapa e ser novamente um gregário de luxo e Luis Leon Sanchez será uma ameaça em muitas tiradas também.

Nas chegadas em topos é preciso ter muito cuidado com Santiago Buitrago, o jovem colombiano já mostrou esta época que adora esse tipo de final, mostrando ainda ligeiras debilidades na alta montanha, como vimos em Burgos. É um outsider interessante para o top 10, capaz de se incorporar muito bem em fugas, onde pode perfeitamente recuperar tempo. Será a estreia de Edoardo Zambanini e se Fred Wright vier com as pernas que teve no Tour vai certamente ganhar pelo menos 1 etapa na média montanha. Jasha Sutterlin completa um dos elencos mais interessantes desta Vuelta.

 

Previsão: Mikel Landa e Gino Mader não irão cumprir e será Santiago Buitrago a assumir a liderança da equipa, terminando no top-10 final e vencendo uma etapa. Fred Wright vai coroar a grande temporada com um triunfo.

 

BORA-Hansgrohe

Se a estratégia do Giro resultou, porque não repetir na Vuelta? Jai Hindley está a passar pelos pingos da chuva e parece que nem ganhou o Giro este ano batendo alguém fortíssimo nas Grandes Voltas como Richard Carapaz, é que na imprensa internacional pouco se fala no australiano que até deu bons sinais em Burgos. É verdade que sairá muito prejudicado pelo contra-relógio individual, mas já mostrou que consegue cavar boas diferenças na montanha e já se viu que é explosivo e consegue somar bonificações. Wilco Kelderman está de saída e pode funcionar como gregário de luxo como no Giro, sendo que as outras equipas não lhe vão dar liberdade.

A outra carta a jogar é a de Sergio Higuita, o colombiano ganhou a Volta a Catalunha, fez 2º na Volta a Suíça e venceu 1 etapa na Volta a Polónia e tem aqui um traçado relativamente bom para o ciclista que é, o problema é que ainda não mostrou ser um ciclista de 3 semanas. Matteo Fabbro vem para ajudar na montanha, enquanto que um segundo bloco importante é constituído pelo sprinter Sam Bennett (a ter uma época para esquecer), pelo lançador Danny van Poppel (bem mais fiável e completo que Bennett) e pelos roladores Jonas Koch e Ryan Mullen.

 

Previsão: Jai Hindley será 2º, estará novamente perto da glória final, juntando uma etapa pelo meio. Sergio Higuita estará na sua praia e ganhará uma etapa.




Burgos-BH

Este é o melhor 8 que a formação espanhola consegue apresentar, sendo que na altura da atribuição dos convites ninguém percebeu porque é que em termos desportivos foi convidada e a Caja Rural não. A menos que as estrelas se alinhem novamente, repetir o que aconteceu em 2019 é quase impossível. Jetse Bol estará presente, ao contrário de Angel Madrazo, ausência de última hora devido à COVID-19, sendo substituído no elenco por Victor Langellotti, recém vencedor de etapa na Volta a Portugal.

Aos 39 anos, Daniel Navarro já não tem capacidade para acompanhar os melhores na montanha. Ander Okamika nem tem andado mal, Jesus Ezquerra é mais uma opção para as escapadas nas etapas mais planas, Oscar Cabedo até surpreendeu com o top 20 na Vuelta 2021 e as 2 melhores opções da equipa para um bom resultado são o fiável José Manuel Diaz (vencedor da Volta a Turquia em 2021) e o sprinter Manuel Penalver (2 top 10 este ano na Volta a Catalunha).

 

Previsão: Muita combatividade mas que espremida não resultará num resultado prático.

 

Cofidis

Sem Guillaume Martin e Ion Izagirre, as opções de luxo escasseiam principalmente tendo em conta que Bryan Coquard ainda não mostrou a sua melhor versão em 2022. O francês continua a ser aposta da Cofidis e não seria uma surpresa vê-los a trabalhar para eliminar alguns puros sprinters, maximizando as chances de “Le Coq”. Se conseguirem deixar para trás Ackermann, Merlier e Thijssen têm em Pedersen o maior rival. Jesus Herrada continua a ser um nome forte para a Vuelta, será a 4ª participação de um corredor que continua a ser um abono de família para os gauleses, é incrível a sua consistência a somar pódios e pontos cruciais. Chega ainda relativamente fresco, é a primeira Grande Volta do ano.

O restante alinhamento servirá mais de apoio a estes 2 ciclistas, não nos parece que José Herrada, Ruben Fernandez, Remy Rochas e Davide Villella tenham grandes chances na montanha, Davide Cimolai até pode sprintar numa ou outra etapa plana e Thomas Champion vem para ganhar experiência.

 

Previsão: Bryan Coquard poderá andar perto, mas o nível de sprint é alto. O mesmo se aplica ao sempre regular Jesus Herrada, vai tentar muito mas também não vai vencer.

 

EF Education – EasyPost

Um daqueles alinhamentos que parece transmitir “vamos levar uns quantos ciclistas protegidos a ver quem é que ainda tem pernas para andar com os melhores”. A formação norte-americana está dividida entre um Uran que se procura redimir de um Tour onde andou desaparecido em combate, um Chaves que continua longe do nível para discutir Grandes Voltas, um Padun que ainda não apareceu em 2022 e um Hugh Carthy que entre estes ciclistas todos ainda é o mais fiável em Grandes Voltas, pelo menos na 3ª semana. Lembrar que Carthy fez 9º no Giro e ganhou 1 etapa na Vuelta em 2020, portanto em teoria até pode ser encarado como líder face aos restantes.

Um traçado com um contra-relógio individual e um contra-relógio colectivo é muito mau para estes corredores, num elenco que é completo por James Shaw, Jonathan Caicedo, Julius van den Berg e Merhawi Kudus, um trepador que estará ao serviço dos restantes. O mais provável é perderem algum tempo logo nos primeiros dias, rapidamente a estrada eleger o líder e os outros vão à caça de etapas.

 

Previsão: A geral não irá correr de feição, Uran, Carthy e Chaves vão falhar e o foco será virado para as etapas. Esteban Chaves vai-se focar nisso e vencer uma tirada.

 

Equipo Kern Pharma

O projecto mais interessante de seguir neste momento em Espanha. 7 dos 8 ciclistas contam para a classificação da juventude, o único mais experiente é Hector Carretero, que já passou pela Movistar e que nem está a fazer uma boa época. Contam com o actual campeão nacional de contra-relógio, o muito jovem Raul Garcia Pierna, um enorme talento que vai tentar a sua sorte em fugas, como a maioria da equipa. Urko Berrade não está a fazer uma temporada incrível, mas é preciso recordar que foi 5º na Cro Race e no Tour du Limousin em 2021 e até não andou mal em Burgos recentemente.

Vojtech Repa chega aqui depois de um 5º posto na Volta a Eslovénia, Francisco Galvan é muito explosivo e adora chegadas em pequenos topos e José Felix Parra foi a grande revelação da Volta a Portugal em 2021. A maior esperança para a conquista de uma etapa talvez até seja Roger Adriá, um ciclista que foi 9º na Clássica Mont Ventoux, ganhou 1 etapa na Route d’Occitanie, fez 5º na prova em linha dos Nacionais e ainda foi 11º na Clássica San Sebastian, está a andar muito bem.

 

Previsão: Em estreia na Vuelta, a formação espanhola irá conseguir um brilharete e Roger Adriá vencerá uma etapa.




Euskaltel-Euskadi

Não é a toda poderosa laranja mecânica dos tempos de Iban Mayo, Samuel Sanchez ou Haimar Zubeldia, longe disso. É um projecto ainda em construção e que agora enfrenta o desafio de tentar segurar os talentos que aparecem. O último que apareceu chama-se Xabier Mikel Azparren e foi 2º na Volta ao Alentejo e 3º nos Nacionais de contra-relógio este ano. Já com a experiência de ter feito a Vuelta em 2021 e com mais corridas na bagagem, espera-se outro tipo de protagonismo nas fugas por parte do jovem de 23 anos proveniente de San Sebastian.

Quem também não vai desistir certamente quando a montanha chegar é Mikel Bizkarra, experiente corredor de 32 anos que vai para a sua 4ª Vuelta e que foi 4º na Vuelta as Asturias. Joan Bou este ano integrou o bloco principal e foi recentemente 2º no Troféu Joaquim Agostinho, vai tentar confirmar que deu o salto, enquanto Gotzon Martin quer repetir a Vuelta agradável que realizou em 2021. O muito jovem Carlos Canal vai tentar fazer o ocasional top 10 em etapas ao sprint.

 

Previsão: A equipa laranja será uma das mais combativas da Vuelta, algo que já é seu apanágio mas não conseguirá o seu grande objetivo, que é vencer uma etapa.

 

Groupama-FDJ

Sem grandes ambições para a classificação geral, Thibaut Pinot chega com as etapas no pensamento, sabendo que não ganha em Grandes Voltas desde 2019. Tudo tem de correr bem para o popular francês ganhar, a menos que seja claramente o mais forte porque já é muito marcado nestas circunstâncias e porque o pelotão não lhe vai dar liberdade se estiver perto na geral. Sebastian Reichenbach é muito regular na montanha e pode perfeitamente terminar entre os 20 melhores, sendo que numa fuga na montanha quase sempre há um trepador melhor que ele. Já Rudy Molard e Quentin Pacher parecem em excelente forma e são mais 2 opções muito credíveis para a conquista de tiradas.

Jake Stewart vem muito mais solto e confiante depois da primeira vitória da carreira, o britânico passa bem a montanha, mas uma coisa é vencer no circuito europeu, outra coisa é no lago dos tubarões das Grandes Voltas. Miles Scotson e Fabien Lienhard compõem o seu comboio e Bruno Armirail é pau para toda a obra, é incrível o motor que o gaulês tem para puxar em prol dos seus companheiros.

 

Previsão: Apesar de sair em branco no contador das etapas, o muito regular Rudy Molard sairá coroado como o rei dos trepadores da Vuelta.

 

INEOS Grenadiers

Já tinham adoptado uma estratégia semelhante para o Tour, uma liderança repartida entre vários ciclistas e a estrada a decidir quem chefia. Por exclusão de partes parece-nos que a liderança é tripartida. Ben Turner tem um potencial tremendo, mas é nas clássicas, o enorme britânico vai ser importante no terreno plano conjuntamente com Dylan van Baarle, que já se sabe que anda bem quer a estrada tenha inclinação, quer não a tenha. Ethan Hayter e Luke Plapp vão ter aqui uma experiência diferente, ambos podem vir a ser bastante úteis, tanto no contra-relógio colectivo, como em dias muito específicos na montanha. Plapp, por exemplo, destruiu o pelotão na Volta a Catalunha.

Tao Hart foi perdendo muito estatuto interno ao nunca mais chegar ao nível do Giro 2020, continua a ser um ciclista perigoso naquelas chegadas em alto que não são muito duras e em sprints em pelotões reduzidos, tem baqueado muito na alta montanha. Carlos Rodriguez tem subido patamares, o super talentoso espanhol esteve muito bem na Vuelta a Burgos e na Clássica San Sebastian, não cremos que seja colocado a trabalhar cedo, a Ineos quer ver o que ele consegue fazer neste contexto, não sabemos bem o que esperar dele. Richard Carapaz perdeu o Giro na última etapa de montanha e a Vuelta 2020 por apenas 24 segundos, vai querer despedir-se em beleza da formação que sempre acreditou nele, os rumores dizem que está de partida. É claramente um voltista, mas não o estamos a ver capaz de ganhar esta Vuelta. Pavel Sivakov foi o seu gregário de luxo no Giro e chega aqui em grande forma, foi 2º na Clássica San Sebastian e ganhou a Vuelta a Burgos, aparentando muita confiança e evolução em vários terrenos. A Ineos não tem um grande favorito e o melhor que tem a fazer é tentar jogar com os números.

 

Previsão: Carlos Rodriguez vai-se estrear com uma super Vuelta, terminando no 3º lugar e vencendo a juventude. Richard Carapaz vai-se despedir da equipa britânica com o 5º posto na geral e Pavel Sivakov vai vencer uma etapa.

 

Intermarché – Wanty – Gobert Matériaux

Um alinhamento sem grande estrutura e a ver o que a Vuelta pode dar. A presença de 2 contra-relógios e a ausência de muita montanha encadeada é mau para Jan Hirt (6º no Giro), Domenico Pozzovivo (8º no Giro) e Louis Meintjes (8º no Tour). Não são corredores particularmente ofensivos apesar de muito consistentes, o pensamento passar por também ganhar etapas, até porque com tantos finais em “Unipuerto”, alguns devem ir para fugas e isso é bom para estes 3 trepadores.

Gerben Thijssen está com muito mais liberdade e confiança, evoluiu bastante esta época e será lançado por Julius Johansen e Boy van Poppel. Aos 24 anos, ganhou nos 4 dias de Dunkerque e na Volta a Polónia. Rein Taaramae continua a ser um ciclista relativamente perigoso em fugas, curiosamente com tendência para se destacar na primeira metade das Grandes Voltas, enquanto Jan Bakelants será o capitão na estrada e é alguém a ter em conta na média montanha, vem de um triunfo recente no Tour de Wallonie.

 

Previsão: Depois de Giro e Tour de grande nível, a Vuelta será mais complicada e a vitória e top-10 final não irá acontecer. Não será por falta de tentativas, serão uma formação muito combativa.




Israel – Premier Tech

Os finais explosivos e empinados são a praia de Michael Woods, que vem tentar somar mais do que os 25 pontos do Tour, sendo que é preciso recordar que o canadiano tem 3 participações na Vuelta e ganhou etapas em 2 delas, terminando em 7º na geral na sua estreia. Chris Froome até fez um Tour bastante aceitável, fez pódio no Alpe d’Huez e por vezes passou montanhas com os melhores, vai tentar novamente encontrar o seu melhor nível, mas não antevemos que faça melhor do que na Volta a França.

Itamar Einhorn vai sprintar nos dias de pelotão compacto e Daryl Impey será opção para os sprints em grupo reduzido, até é possível vermos a Israel a trabalhar nessas jornadas porque um pódio dá bons pontos. Patrick Bevin é dos ciclistas mais irregulares, enigmáticos e subvalorizados do pelotão, nos seus dias consegue fazer de tudo, tanto pode triunfar numa tirada como andar escondido a Vuelta toda. Alessandro de Marchi vai mostrar a sua habitual combatividade e será acompanhado por Omer Goldstein e Carl Fredrik Hagen.

 

Previsão: Este é o terreno de Michael Woods, o canadiano será um corredor muito ofensivo e, num final com um muro, conseguirá o seu objetivo. Quando menos se esperar, Patrick Bevin irá tirar um coelho da cartola e vencer uma etapa de média montanha.

 

Jumbo-Visma

Depois de muitas dúvidas Primoz Roglic está presente para tentar o 4º título consecutivo na Volta a Espanha. O esloveno foi um dos azarados do Tour, caiu e magoou-se numa vértebra, lesão que só viria a ser descoberta mais tarde e da qual recuperou mesmo a tempo. Antes de deixar a Volta a França ainda ajudou Vingegaard como pôde, vamos ver em que condição física chega porque o percurso é bastante favorável para as suas características. A Jumbo-Visma vai fazer um bom contra-relógio colectivo, Roglic consegue somar bonificações e vai andar bem no contra-relógio individual.

Vem com o seu fiel companheiro Sepp Kuss, um gregário de luxo na montanha, que por vezes dispõe de uma ou outra chance de glória. No entanto, para um bloco super forte e consistente vai também ser preciso o melhor Sam Oomen (melhor do que no Giro) e o melhor Rohan Dennis (do nível do Dennis no Giro 2020), 2 ciclistas algo intermitentes no seu desempenho. Edoardo Affini e Mike Teunissen têm como tarefa proteger Roglic nas etapas mais planas, com Teunissen a ser uma ameaça em certos sprints. Chris Harper e Robert Gesink completam o bloco, não sendo neste momento particularmente fiáveis na alta montanha.

 

Previsão: Primoz Roglic fará história e conquistará a 4ª Vuelta consecutiva, depois de mais um ano a abandonar o Tour e focar-se na prova espanhola. O esloveno coroará o seu título com uma etapa. O contra-relógio coletivo também será da equipa neerlandesa.

 

Lotto Soudal

O foco está na manutenção no World Tour, vêm à Vuelta com uma segunda linha somente com o objectivo de conquistar etapas e ter alguma visibilidade, em que Thomas de Gendt é a figura maior. O experiente belga mostrou no Giro ainda ter as pernas necessárias para obter uma grande vitória, nunca se sabe quando vai aparecer o melhor Thomas de Gendt. De resto Steff Cras é o ciclista mais cotado, tem feito uma época discreta mas regular, 16º no Paris-Nice, 16º na Volta ao País Basco, 11º no Tour de Romandie e 14º no Dauphine.

Harry Sweeny não é um corredor muito conhecido, mas é preciso ter muito cuidado com ele nas fugas, já tem alguma experiência a este nível, é completo e está em boa forma. Maxim van Gils também chega num bom momento, só que numa competição deste nível é sempre complicado evidenciar-se. Filippo Conca, Kamil Malecki, Jarrad Drizners e Cedric Beullens são os restantes eleitos.

 

Previsão: O elenco secundário irá resultar numa fraca prestação.

 

Movistar Team

A despedida de Alejandro Valverde da Vuelta e das provas de 3 semanas é acompanhada por algum desespero na luta pela manutenção no World Tour. A época da formação comandada por Eusebio Unzue está a correr manifestamente mal, especialmente a de Enric Mas, que era suposto ser o novo grande líder da Movistar depois da saída de Nairo Quintana e de Miguel Angel Lopez. Um top 5 do espanhol aqui seria quase um garante da permanência da Movistar no World Tour, mas não vemos isso como muito provável. Alejandro Valverde tem aqui várias etapas ao seu estilo, só que a explosão já não é a mesma, tem-se visto isso este ano. Ainda assim fez 11º no Giro e pode perfeitamente fazer top 10 aqui, com um traçado até acessível para ele, resta saber se quer sair a dar espectáculo ou a ser mais conservador.

Carlos Verona está a ter uma excelente temporada, entre top 10 em gerais de corridas World Tour e uma vitória no Dauphine, não deverá ser sacrificado cedo como em outras Grandes Voltas. Primeiro porque está em boa forma, segundo porque pode somar bons pontos com o lugar na geral, terceiro porque não se sabe bem a condição física de Enric Mas. Mathias Norsgaard e Nelson Oliveira serão importantes na colocação no terreno plano e no contra-relógio colectivo, Gregor Muhlberger uma ajuda extra na montanha, José Joaquin Rojas e Lluis Mas os capitães na estrada. As ausências de Ivan Garcia Cortina ou Alex Aranburu justifica-se pela necessidade de somar pontos World Tour noutras corridas do circuito europeu.

 

Previsão: A temporada da Movistar não está a correr de feição e, a correr em casa, Enric Mas irá mostrar a sua melhor versão ao terminar no top-10 final.




Quick-Step Alpha Vinyl Team

Há alguns dias escrevemos que Remco Evenepoel teria um super apoio na Vuelta e mantemos essa ideia apesar de alguns de vocês discordarem. Obviamente que não se compara com a Jumbo-Visma do Tour ou a Ineos de algumas Grandes Voltas. Mas é, de longe, o melhor apoio que um líder para Grandes Voltas alguma vez já teve na estrutura da Quick-Step. Talvez apenas o melhor Asgreen entraria neste lote substituindo alguém do plantel corrente. Lefevere deu a Evenepoel tudo e mais um par de botas para o prodígio belga ter sucesso nesta Vuelta e o percurso, sem muitas etapas de montanhas encadeadas, é perfeito para ele. Resta saber se consegue repetir em dias sucessivos as exibições das clássicas, como a Liege-Bastogne-Liege e a Clássica San Sebastian, se derem uns metros a Evenepoel, o belga transforma em segundos ou minutos.

E quem está no apoio? Em primeiro lugar os fiáveis e experientes Pieter Serry e Dries Devenyns que entre eles têm 25 Grandes Voltas. Depois há o super rolador Remi Cavagna, que tem um motor incrível e reboca um pelotão quase sozinho. Ilan van Wilder é muito completo e vem de um bom 5º lugar na Vuelta a Burgos, Louis Vervaeke foi contratado para estar ao lado de Evenepoel, foi 20º no Giro do ano passado e é preciso lembrar que Fausto Masnada já foi 9º no Giro e tem pódios em Monumentos e corridas World Tour. A peça chave pode ser Julian Alaphilippe, se o actual campeão Mundial estiver minimamente em forma pode perfeitamente estar junto de Evenepoel em muitas das montanhas, sendo que vai querer deixar a sua marca nesta Vuelta.

 

Previsão: Tudo para Remco Evenepoel e o belga vai terminar no top-10 e, pelo meio, com muito espetáculo à mistura, irá vencer duas etapas.

 

Team Arkéa-Samsic

Uma equipa que parece já estar um pouco a pensar em 2023 depois de praticar garantir a subida ao World Tour. O caso Nairo Quintana veio retirar o colombiano da prova, este disse que irá focar-se na sua defesa e por isso renunciou à sua participação. Em relação à desqualificação de Quintana do Tour apenas mais um apontamento desportivo, a Arkea-Samsic fica sem 455 pontos que o colombiano somou, o que a colocou praticamente no mesmo patamar da Movistar e da EF, até porque com a subida de lugares a EF fica com mais 35 pontos do que tinha e a Movistar mais 10.

Globalmente parece um alinhamento algo desgarrado, apenas com Gesbert e Guernalec para a montanha, e mesmo assim não são ajudas incríveis apesar de Gesbert ser talentoso. Simon Gugliemi vai estrear-se na corrida espanhola e Lukasz Owsian e Clement Russo vão tentar ajudar o britânico Dan McLay nos sprints, ele que este ano não sobe ao pódio desde Fevereiro, portanto as esperanças não são muitas.

 

Previsão: O melhor da temporada da equipa gaulesa já lá vai, poderão tentar muito com Elie Gesbert mas a vitória não vai acontecer.

 

Team BikeExchange – Jayco

Simon Yates continua com a sua tradicional irregularidade, o britânico não é um voltista nada fiável por estes dias, tem 3 DNF nas últimas 4 Grandes Voltas. Mesmo assim saiu do Giro com 2 etapas e depois somou 3 vitórias em Espanha, antes de fazer 6º na Clássica San Sebastian, onde rebentou numa aceleração de Remco Evenepoel. De Yates já esperamos o melhor e o pior, o problema é que mesmo que Yates esteja ao seu melhor, não contará com uma equipa incrível com ele, o que já por si não é uma grande indicação. Até que ponto a luta pelos pontos WT não teve também influência neste frágil alinhamento?

Lawson Craddock até é bastante fiável, não sendo extraordinário, é Lucas Hamilton quem tem estado a desiludir após um 2021 de grande qualidade. Se Yates quer ter hipóteses de vitória precisa de um Hamilton ao seu melhor nível, até porque o resto da equipa é bastante fraca na montanha visto que tem Kaden Groves para os sprints. O jovem australiano tem sido uma das sensações da temporada, já soma 2 triunfos em corridas importantes e mostrou que é regular e que passa bem a montanha. No comboio terá Luke Durbridge, Michael Hepburn, Callum Scotson e Kelland O’Brien.

 

Previsão: Simon Yates irá terminar no top-10, a luta pelos pontos será fundamental para este resultado, sendo que irá vencer uma etapa de montanha. Kaden Groves irá vencer uma etapa ao sprint.

 

Team DSM

6 jovens, 2 veteranos e muitas incógnitas no ataque à Vuelta. Curiosidade para ver o que Thymen Arensman consegue fazer, ele que esteve em destaque no Giiro, mas saiu de mãos a abanar. O neerlandês supostamente está a caminho da Ineos-Grenadiers e ainda não é muito consistente, na Volta a Polónia parecia fora da discussão e fez um contra-relógio brilhante que o levou a ser 2º na geral. Não é muito explosivo e deve vir à caça de etapas. Será a primeira experiência em Grandes Voltas para os super talentosos Henri Vandenabeele e Marco Brenner, já com alguns top 10 durante a época e Mark Donovan já tem mais responsabilidade de estar em destaque, está numa fase de evolução diferente.

John Degenkolb já não é capaz de discutir etapas ao sprint, a sua melhor chance é numa fuga, bem como Nikias Arndt. Completam o alinhamento Joris Nieuwenhuis e Jonas Hvideberg, que em 2020 foi campeão europeu de estrada.

 

Previsão: Numa equipa sem grandes nomes, Arensman será o nome mais ativo no entanto, o jovem neerlandês ainda não conseguirá um grande resultado.




Trek – Segafredo

Entre clássicas, o Tour e as corridas de preparação, Mads Pedersen chega à Vuelta com 60 dias de competição. Se completar a prova espanhola (o que duvidamos muito) e fizer ainda mais umas clássicas tem tudo para chegar aos 90 dias, o que é imenso. O desgaste pode fazer-se sentir no dinamarquês, que faz pela primeira vez na carreira 2 Grandes Voltas no mesmo ano e que desde o Tour só competiu nos Europeus. Se ainda tiver pernas, Pedersen tem tudo para deixar a sua marca na corrida espanhola, dos sprinters é daqueles que melhor passa as subidas e evoluiu nesse aspecto ainda mais este ano. O comboio é curto, com Hoole e Kirsch para os finais em pelotão.

Na montanha há espaço para os jovens, Antonio Tiberi vai estrear-se em Grandes Voltas após algumas exibições interessantes em corridas menores, Dario Cataldo, Julien Bernard e Kenny Elissonde têm experiência para dar e vender e podem aproveitar uma fuga certeira e Juan Pedro Lopez, a jogar em casa, poderá ser a carta apontada à classificação geral. Será a primeira vez que o jovem de 25 anos chega sequer com o vislumbre dessa responsabilidade depois de ser 10º no Giro, onde conquistou a camisola branca, de melhor jovem. Desde então competiu muito pouco e não deixou grandes indicações.

 

Previsão: Mads Pedersen vai salvar a honra do convento e vencerá uma etapa.

 

UAE Team Emirates

Muitos nomes sonantes, será que vão funcionar como uma equipa? Vêm divididos em 2 blocos, o mais fácil de interpretar é para os sprints, onde Ivo Oliveira e Juan Sebastian Molano vão tentar colocar Pascal Ackermann na melhor posição possível. O alemão tem sido algo irregular nos últimos anos, capaz do melhor e do pior, o comboio funcionou bem na Polónia e ganhar 1 etapa não seria uma surpresa completa.

Para a classificação geral a cantiga é outra. O fenomenal triunfo de João Almeida na Vuelta a Burgos depois de deixar o Giro obrigado e debilitado deu esperanças a todos nós. No entanto, o português normalmente confiante tem menorizado as suas chances de um grande resultado, ao contrário do que até aconteceu no Giro, dizendo que os últimos meses têm sido complicados. Será estratégia ou sinceridade? Juan Ayuso estreia-se em Grandes Voltas como alternativa para o desconhecido, já que o espanhol de apenas 19 anos foi 4º no Tour de Romandie e 5º na Volta a Catalunha e não se sabe até onde pode chegar. O que foi visível é que a química com João Almeida na Volta a Catalunha não foi incrível, com decisões tácticas questionáveis, que não parece disposto a trabalhar para outrém e que já tem muito estatuto interno até porque já renovou até 2028. Brandon McNulty teve prestações inacreditáveis no Tour ajudando Tadej Pogacar, veremos qual é o seu papel num traçado bom para o norte-americano. Marc Soler parece dedicado às suas funções de gregário de luxo, ainda com pouca experiência nesse campo e Jan Polanc será o capitão na estrada.

 

Previsão: João Almeida vai terminar mais uma Grande Volta entre os melhores, ao ser 4º, ganhando uma etapa pelo caminho. A estreia de Juan Ayuso culminará com uma etapa, top-10 final e vitória na classificação por pontos. Pascal Ackermann também vai picar o ponto.




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