Um Giro esplendoroso, de sonho e histórico para o ciclismo português

À partida da Volta a Itália todos nós tínhamos esperança de grandes resultados por parte de Ruben Guerreiro e João Almeida, ambos vinham de excelentes exibições nas semanas anteriores e os perfis “rasgadinhos”, habituais na competição italiana, adequavam-se bastante bem a ambos.





No entanto, longe de imaginar o que aconteceria nos dias seguintes, principalmente para uma nação que apenas tinha 2 ciclistas a participar, há 16 países com mais representação na prova. Mas quem diria, 9 etapas volvidas e os ciclistas portugueses têm 3 das 4 camisolas distintivas deste Giro. O que importa é a qualidade e não a quantidade, nisso Portugal dado provas infindáveis.

Na Sicília, num contra-relógio muito complicado pelo percurso e pelo vento, João Almeida só foi batido pelo campeão do Mundo, o que lhe permitiu 2 dias mais tarde vestir a camisola rosa no Etna. O João foi resistindo enquanto outros favoritos foram sucumbindo e no final tudo se decidiu por centésimos de segundo face a Jonathan Caicedo. Uma pedalada em falso e não tinha ficado com a rosa.

Etna, onde Acácio da Silva também já tinha sido muito feliz, estava escrito nas estrelas. João Almeida agarrou-se à rosa com unhas e dentes, com a ajuda preciosa da equipa. Foi somando bonificações nos sprints e no final das etapas para estender a liderança e alimentar o sonho. Um estreante em Grandes Voltas a levar o símbolo de liderança durante 1 semana, surreal.




E ontem Ruben Guerreiro escreveu mais uma bela página do livro do ciclismo português. A vitória do corredor da EF Pro Cycling não vem por acaso, no Tirreno-Adriatico trabalhou muito e bem para Michael Woods, antes de, na penúltima etapa, ser 2º, apenas atrás de Mathieu van der Poel. Neste Giro já tinha tentado, no dia em que Filippo Ganna ganhou. Nesse dia tinha perdido por segundos o ataque de Thomas de Gendt, ontem teve os timings tácticos perfeitos.

Primeira vitória no World Tour, aos 26 anos, para Ruben Guerreiro, depois de deixar Jonathan Castroviejo para trás. Primeira vitória portuguesa em Grandes Voltas desde a Vuelta em 2015 (Nelson Oliveira). Primeira vitória portuguesa no Giro em 31 anos, o último tinha sido precisamente Acácio da Silva em 1989. No pelotão João Almeida cedia alguns segundos no explosivo final, mas mantinha a rosa com firmeza, podendo dormir com ela no dia de descanso. Apenas 3 ciclistas tinham usado o símbolo de liderança em Grandes Voltas: Joaquim Agostinho e Acácio da Silva, João Almeida já é o ciclista português de sempre com mais dias na liderança de uma prova de 3 semanas.

E agora? Agora precisamos de ter a noção que João Almeida está a entrar em território desconhecido, nunca fez mais de 10 dias de competição encadeados, e aqui as etapas são maiores, a pressão é maior, a atenção mediática é maior e o descanso é menor. As cerimónias de pódio, os controlos anti-doping todos os dias, os compromissos com a imprensa têm de ser geridos com pinças para que o João tenha todo o descanso necessário, preponderante a este nível.




Seguem-se 4 etapas de média montanha antes do contra-relógio. À partida, João Almeida tem todas as condições para segurar a rosa até ao esforço individual, se nada de anormal acontecer e aí até possivelmente estender a liderança para alguns dos rivais. Mas cuidado, estes perfis de média montanha são capazes de rebentar corridas, olhem o que acontece muitas vezes no Tirreno-Adriatico, onde chegam grupos separados por minutos. E a Trek já se mostrou atenta para aproveitar qualquer oportunidade que apareça.

Por enquanto, para os fãs da modalidade é simplesmente apreciar, antes de sofrer por eles e com eles. Até porque João Almeida tem 2 camisola (rosa e branca) e Ruben Guerreiro 1 camisola (azul da montanha), ou seja, das 4 camisolas, os ciclistas portugueses têm 3. Temos 2 jovens, um de 22 anos e outro de 26 anos, a brilhar ao mais alto nível. Graças a eles e a mais alguns ciclistas de muita qualidade o futuro está garantido, nota-se perfeitamente o impacto que estas grandes exibições já estão a ter e uma prova disso a nível mediático é a excelente capa que o jornal “A Bola” tem hoje.

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